O Dicionário do Mal

Desde março, no Brasil, pelo menos, estamos em quarentena – em razão, de forma direta e objetiva, dos avanços do vírus corona Covid-19. O mundo todo se viu obrigado a restringir suas atividades presenciais mais coletivas com o objetivo de interromper a proliferação galopante do vírus, procurando impedir que ele faça bem menos vítimas do que poderia se as ações de contenção não estivessem acontecendo. É uma desgraça em escala mundial, um verdadeiro genocídio em massa e uma luta desesperada por nossa vida não somente como indivíduos, mas como espécie.

Enquanto escrevo este texto (que tem mais dias que a data de sua publicação), as ferramentas do Google confirmam um número de 4,71 milhões de infectados, 1,73 milhões de recuperados e 315 mil mortos – o que daria em torno de 0,004% da humanidade findada de janeiro para cá. Em termos numéricos, parece pouco, mas, e sempre é importante lembrar, o que morre não são números, mas nomes, histórias, vidas, amores. São 315 mil almas perdidas não por uma violência em grande escala – que, por uma horrível sincronia, continua também está sendo “televisionada”, pois nunca deixou de acontecer -, mas por algo tão comum quanto qualquer coisa em nosso dia a dia – pois os vírus estiveram em nossas rotinas desde de sempre, nos forçando a uma adaptação a eles mais do que eles a gente.

Este vírus, por sua vez, é um vírus “de verdades” – não dá pra escondê-lo por trás da mentira dos preconceitos como fizeram com a AIDS, que era, primordial e falsamente, chamada de “doença dos gays”: nunca foi e nunca será. Um vírus é uma força de guerra igualitária, silenciosa, invisível e cega. Ele não entende nossos apartheids, ele não vê nossos sectarismos: tudo o que ele vê é a oportunidade e espera por ela de forma paciente e precisa, executando ataques velozes. Não dá pra mentir sobre ele. O Covid sequer permite isso.

Por isso que ele é um vírus “de verdades” e insisto nisso – pois, como ele nos força à quarentena, também nos força a olhar para dentro de nós mesmos – e, pelos deuses, como estávamos precisando disso. Quando nos abstemos do mundo, somos forçados a conviver conosco, forçados a ver nossas reais faces, nossas reais exigências, necessidades e, principalmente, somos forçados a ver o que estamos negando pra/de si, o que estamos encobrindo, o que estamos deixando passar: as verdades que nos negamos, as belezas que não percebemos, as feiuras que temos e fingimos não ter – o vírus está nos levando a encarar as nossas verdades em frente aos nossos espelhos físicos e anímicos, está nos fazendo o convite de abraçarmos nossas luzes e nossas sombras, de fazermos as pazes não com o mundo, mas conosco, em nossas individualidades – e, quem sabe, depois disso, podemos nos voltar a ver o mundo de outra forma, a sermos mais compreensivos, mais unidos e mais irmãos – afinal, como amar o outro se não conseguimos nos amar? Como aceitar a diferença do outro se viramos o rosto para as nossas? Como perdoar as irmãs e irmãos que estão fora se não conseguimos nos perdoar, se carregamos nossas culpas como uma penitência crucis? Como ser empático com o outro, se vestimos máscaras de hipocrisia para nos olharmos no espelho e parecermos com aquilo que acreditamos que deveríamos ser, não com o que realmente somos?

Como todo grande cataclisma – desde o Velho Testamento -, este está nos oferecendo uma chance de revermos nosso lugar como indivíduos dentro do grande organismo que é o planeta Terra.

Externo a isso, do lado de fora da quarentena, o que temos são mentiras. Discursos da necropolítica encabeçados por um presidente genocida, que, como o espelho de narciso, apresenta uma “grotesca beleza” na superfície das águas mortais – a cura equivocada, a truculência que nada soluciona, o atletismo que resiste a uma doença que a primeira coisa que arranca é o ar de seus pulmões – e há quem prefira estas mentiras, atirando-se às águas lodosas de uma morte fria, sem fôlego, não se permitindo encarar a verdade que encontraria dentro de si ao escolher ficar em casa: que suas mãos estão tão sujas de sangue quanto o interior oco do objeto de sua idolatria: o presidente fascista – amante do mais falso deus da humanidade: o capital, que agora cambaleia como zumbi, ferido por um vírus extremamente eficiente, completamente igualitário, mas – como já ensinavam os gigantescos monstros japoneses de seriados – se ele cair, vai levar o máximo possível de almas, convidando-as para cear seu festim de mentiras do lado de fora.

É complicado aceitar-se. Aceitar a própria “sombra”, o próprio mal. Quando o espelho que nos reflete possui uma caveira com foice, retiramos o objeto de lá – mas isso não muda os fatos que vivemos ao aceitar as mentiras, o sangue continua a escorrer e sujar o caminho que fazemos, mesmo que não olhemos para trás.

Isso me recorda uma história conhecida aos círculos cristãos: uma adoradora do Deus crucificado acredita que este está sempre ao seu lado, mas, ao olhar para trás, só vê suas pegadas. Indignada, cobra à divindade as marcas de seus pés ao lado dos seus. A entidade fala, no entanto, que as pegadas que a crente vira não eram as suas próprias, mas as do deus, que a levava nos braços durante toda sua jornada.

Um seguidor bolsonarista passa por algo muito parecido: ele olha para trás e vê, em meio ao rastro de sangue, somente um par de passos e, achando que é seu herói que o leva nos braços, não indaga nada e segue o caminho olhando para frente. Mal sabe ele que as pegadas não são de seu “mito”, mas as suas próprias, enquanto ele ergue nos braços, seguro e orgulhoso e estúpido, o sanguinolento peso de seu líder.

Imagem de destaque por Leeroy.

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