Labirintos da Solidão

Desde que a quarentena começou, lá por meados de março de 2020, eu venho sendo perturbado por sonhos completamente episódicos, misteriosos e confusos como devem ser, mas também interessantes e, a cada aprofundamento na solidão reclusiva, mais complexos, mais cheios de regras.

Depois de uma longa sequência de sonhos curtos, com mensagens embaralhadas, fui assaltado em minha última noite por esse:

Havia um gigantesco labirinto, o qual eu conseguia ver de forma completa – de um privilegiado lugar do alto – suas estruturas e texturas mudavam o tempo todo, assim como o próprio, apesar de tais mudanças, por mais absurdas que poderiam vir a ser, aconteciam de maneira discreta, como num piscar de olhos ou numa virada de cabeça.

Nele, havia 4 entradas, as quais eram, igualmente, 4 saídas. Cada entrada possuía uma “virtude” chave, assim, só era permitido adentrar aquele caminho aqueles que tivessem, de forma muito segura e óbvia, aquela virtude específica. Mesmo em meu lugar de expectador onisciente, eu não saberia dizer que virtudes serviam a cada “porta”, da mesma forma, aqueles que entravam não viam a definida “chave” de acesso, apesar de serem possuidores dela – numa jogada irônica em que cada “aventureiro” não fosse capaz de ver/reconhecer sua própria virtude.

Essas virtudes só seriam realmente compreendidas, na verdade, à saída – e, nisso, estava o poderoso detalhe do labirinto: quem entra, nunca sai na mesma entrada – sendo praticamente impossível perceber com qual virtude se entrou, mas com total conhecimento sobre com qual virtude se saiu: pois o labirinto muda todos e mesmo que um dos aventureiros pudessem sair preservando a virtude com a qual entrou, também saía com uma outra virtude, caso não, com uma nova virtude que suprimiria a original.

Enfim, dentro do sonho existiam 4 seres – eu não digo que são faces ou pessoas, mas pareciam entidades – existências que habitavam aquele cenário e que, de alguma forma, também o regiam, dando-lhe integridade existencial e significado.

A primeira entidade intitulei “cavaleiro”: nobre, ousado, perseverante, audaz, valente, mas temerário, impaciente, muitas vezes cego. Ele entrou no labirinto objetivando o reconhecimento e a glória, mas sua sombra era a morte. Ele não se importaria de encontrar o último se conseguisse o primeiro.

O segundo chamei de “sábio”: calmo, resoluto, organizado, pragmático, preciso, mas também confuso, covarde, moroso, corruptível. No labirinto, ele buscava o equilíbrio, mas sua sombra era a solidão. Ele tinha certeza que só poderia chegar ao primeiro se conseguisse a plenitude do segundo.

O terceiro chamava a si mesmo de “amante”: alegre, comunicativo, vivaz, leal, maleável, mas igualmente tolo, inocente, dependente e perigosamente abnegado e influenciável. Ele via o labirinto como as linhas de seu coração, e nele desejava encontrar o amor, mas sua invisível sombra era a servidão. Ao buscar o segundo, ele não encontrava o primeiro, e quando o primeiro se apresentava de forma verdadeira, ele deixava escorregar por seus dedos ou o sufocava nas amarras do segundo, assim, ele nunca tinha real certeza do que realmente vivia.

O quarto e último baforava sua face num grande brado, intitulando-se “monstro”: um sobrevivente por natureza, forte, confiante, autossuficiente, destemido, mas também irado, destrutivo, violento, obcecado. Ele buscava desesperadamente a paz, mas sua larga sombra só lhe indicava a guerra. Ele não conseguia olhar para a luz e ver que havia mais do que a limitada escuridão que se projetava dele o permitia perceber.

Essas quatro entidades vagavam por esse labirinto, vindos de entradas – e, por sua vez, virtudes – distintas. Entraram em momentos diferentes e nem todos tinham se encontrado até aquele sonho. Pequenas alianças foram feitas, e alguns conseguiram avançar na direção de alguma saída, mas, infelizmente, afastaram outros de seus próprios caminhos – assim, as uniões se mostraram frágeis e irresolutas.

Em algum momento, eles se digladiaram e alguns foram gravemente feridos, na esperança de outros seguirem em frente, mas a verdade é que todos acabaram se perdendo ainda mais.

Um ou dois decidiram voltar, achando que de nada adiantariam seguir, enquanto outros abraçaram os labirintos e esperavam fazer parte dele – mas não havia caminho de volta, bem como não importava o quanto se esforçassem, eles nunca seriam o labirinto e o labirinto muito menos eles.

Assim, eles se encontraram num ponto perdido – entreolhando-se – sabendo que só poderiam sair do labirinto se estivessem juntos, mas não fazendo ideia de como se aliar, de como encontrar apoios uns nos outros, de como aqueles opostos poderiam realmente se ajudar.

Eles se encararam por muito tempo, procurando uns nos outros soluções para seus problemas – então voltaram a olhar pra dentro de si, perscrutando saber porque eles sozinhos não poderiam ser suas saídas.

Por fim, acordei. Em minha casa vazia e solitária, pequena prisão imposta pela morte que ronda o lado externo da quarentena, resistente minotauro no labirinto de mentiras que o mundo se formou.

Acordei sem soluções, esperando que o próximo sonho me diga algo.

Imagem destacada por Rikki Chan.

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