Natanael e Eu

Era uma noite de sábado. Tinha acabado uma série de atividades e decidi ir pra casa da namorada. Coloquei umas roupas numa pequena mochila e parti. Dei fé, então, que já eram mais de nove horas da noite pra ir a pé – a distância da casa dela para minha é ligeiramente saudável para uma caminhada. Temendo o perigo gerado pelas ruas mal iluminadas e a noite mal intencionada, bem como levado pela pressa dos amantes, desviei para o ponto de ônibus, esperando que, mesmo naquele horário, a condução não custasse tanto.

Depois de vinte minutos esperando, começou a se aproximar um sujeito numa bicicleta. A cidade anda infestada de ciclistas e eu só percebi que esse não era mais um deles quando estava perto demais – sua pressa misturada com o nervosismo enquanto retirava uma arma da bermuda, mal escondida no elástico frouxo. Balancei a cabeça e franzi a testa e ele apontou a arma pra mim, ainda montado no veículo.

– Me passa alguma coisa. – disse meu atacante, procurando manter o tom de voz firme, mas baixo o suficiente pra não criar alarde.

– Desculpe, não tenho nada. – respondi com certa decepção.

– Não tem nada nos bolsos?

– Somente o bilhete único, amigo. – mostrei o item a ele – Agora tudo é no cartãozinho. Realmente, me perdoe.

– Pois me dê sua bolsa.

– Não sei se vai te ajudar muito, mestre. Infelizmente, ela tá cheia de roupa suja. Tô levando pra lavar agora. – falei, envergonhado pela mentira, a roupa estava toda limpa. – Me perdoe por isso também.

Ele baixou a arma me olhando com pena. Eu abri os braços, inocente, decepcionado por não ter nem mesmo o mínimo para um assalto.

– Me perdoe, cidadão, eu não sou disso, sabe? – falou ele, olhando para meus olhos – mas é que os hômi tão tentando me matar e eu quero pagar logo eles, sabe?

– Oh, amigo, não precisa se desculpar. Eu que tenho que me desculpar por não saber como ajudar você. – respondi numa sinceridade inquietante.

– Pois reze por mim, cidadão.

– Rezo sim, meu querido. Me diga seu nome.

– Natanael.

– Eu rezarei por você, Natanael. Não quero que você leve um tiro.

Ele desceu da bicicleta e me deu um abraço. Correspondi com alguma timidez, mas muita ternura. Olhei nos seus olhos vermelhos e velhos e disse que esperava que tudo ficasse bem. Ele voltou a por a arma na bermuda e partiu com a bicicleta, mas não antes de olhar uma última vez pra mim e me desejar um bom retorno pra casa.

Mais vinte minutos esperando e minha condução chegou. Quando contei o acontecido pra minha namorada, ela perguntou como eu estava, se me sentia com medo.

– Na verdade, espero que Natanael esteja bem. Compadeci da situação dele.

Ela me lançou um olhar ao mesmo tempo incrédulo e incerto. Riu do que respondi, mas acabou me levando a sério quando, no meio da noite, ela me viu ajoelhado ao pé da cama falando quase em sussurro:

– … e, Deus, cuida pra que o Natanael fique bem.

Imagem destacada por Anne.

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