Still thinking the same? Um retorno a Batman vs Superman: A Origem da Justiça

Esse artigo foi publicado originalmente em 2016, no tumblr: luiscarlososousa.tumblr.com

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Esperei a onda de comentários e a hype do filme passar pra poder assisti-lo. Consegui uma daquelas versões estendidas que (em teoria) melhorariam a impressão e a compreensão geral do filme. Eis meus pontos acerca dessa produção que é o segundo (ou terceiro, sempre me confundo) do universo cinematográfico da DC Comics:

1. Batman, figura central do filme desde o começo, parece completamente deslocado daquilo que ele realmente é: o maior detetive do mundo. A sua jornada de vingança é um escape infantil de fúria que o cega a ponto de ele não pensar no quadro geral da existência do Superman naquele mundo, somente que este é um alien a ser abatido. O personagem corre por fora daquela que deveria ser a trama central do filme (quem deu ao Superman a liberdade de ação em escala mundial e como se lida com as responsabilidades e consequências disso?) e acaba por fazer um filme próprio, paralelo a todo o resto, que engole a jornada do Homem de Aço de forma irresponsável;

2. Lois e Clark/Superman, por sinal, são os personagens/atores que mais se esforçam em fazer um filme interessante. Sua interação como casal (que não passa de um pouco mais de 5 minutos na película inteira) e os dramas dessa relação são um brilho de um filme que poderia ser diferente, mais intimista e incrivelmente mais atraente. Um dos mais importantes casais da DC parece sofrer com um namoro a distância que, não fosse uma banheira, soaria como um platonismo adolescente, isso mais por culpa de uma direção e edição apressadas que pareciam não ter entendido que tipo de filme deveriam fazer do que pelo formidável (e subaproveitado) elenco;

3. Quando ouvi as primeiras notícias sobre o que fariam com Lex Luthor, o fato de torná-lo uma coisa meio Zuchenberg, eu achei a ideia realmente interessante, mas a execução final foi, de cara, a mais reprimível. Jesse Eisenberg parece ter copiado sua atuação do Charada de Jim Carrey em Batman: Eternamente, uma atitude equivocada só pela própria existência desse papel na filmografia do Morcego. Piora o fato de ele não ter uma motivação realmente clara para perseguir o Superman. Em algum momento, Luthor alega que o Superman é um tipo de simbolismo da relação dele com o pai, mas a coisa é toda tão mal explicada e pouco consistente que a maior razão pra Lex Luthor fazer o que faz é por ele ser um entendiado menino rico. Saudades de Gene Hackman e Kevin Spacek e seus Luthors que tudo o que queriam era especulação imobiliária…

(3a. é de Luthor também que vêm os maiores deslizes do filme: se ele tem a CIA e o FBI e sabe-se lá quem mais dentro do bolso, porque ele precisa da aprovação de uma senadora para trazer uma pedra brilhante pra dentro do país? Ele tem vários arquivos de metahumanos personalizados com “logos”… hum? “ei, eu tenho alguns arquivos secretos sobre a existência de seres sobre-humanos no mundo… manda lá pro marketing fazer umas logos estilosas pra minha pasta do Windows, please”. Ele passa o filme todo tentando matar o Superman, mas no fim acessa a nave dele pra invocar alienígenas destruidores do planeta… por que? Ele não foi capaz de manipular tão facilmente o Superman ou de criar uma aberração kryptoniana catastrófica, por que sumonar o demônio do espaço pra fazer o trabalho sujo e tirar o crédito dele?)

4. Falando sobre o dilema “Martha”… bem, me pareceu fazer sentido Batman resolver sua “mortal antipatia” com Superman ao perceber que a mãe do cara corria perigo de vida: os traumas soaram altos na cabeça do menino Bruce e ele correu pra salvar a mãe de uma pessoa, independente de quem seja, como forma de salvar a sua própria. No entanto, como quase todo o filme, há uma inconsistência absurda com as linhas de fala e atuações e ações dos personagens. Todo o texto da cena de enfrentamento deles parece saído de um gibi de quinta a ponto de ser bem mais fácil acreditar que aqueles seres superpoderosos existem que na realidade de seus diálogos…

(4a. Eu sempre penso que se vc, enquanto diretor – e jovem, já que Snyder não tem a idade ou experiência de um Spielberg, por exemplo – tem a chance de ter Holly Hunter, Amy Adams, Diane Lane, Jeremy Irons ou Lawrence Fishburne no elenco, você se esforça em dar a essas atrizes e atores papéis interessantes que realmente justifiquem a presença deles ali, entregando a esse elenco cenas que elevem a história, porque você sabe que é isso o que essas pessoas vão fazer: tentar elevar sua história com a força de suas atuações. Em BvS não acho que isso foi levado em consideração…)

5. A Mulher Maravilha de Gal Gadot é um negócio meio vergonhoso de ver – e a culpa não é dela. Não importa o quanto a atriz tenha se empenhado para o papel, fizeram dela um bibelô seminu que passa de cena em cena sem uma real função e é abordada por Bruce como se fosse uma vendedora de cigarros num cabaré da década de 1940 (inclusive falando tanto quanto). Quando ela teve a real possibilidade de mostrar quem é, deram um conjunto de poses saídas de uma sessão ginecológica e chamaram de “luta” que (vejam só) continuou a ter função nenhuma. Acho que Gal Gadot (e a Mulher Maravilha) realmente merecia mais do que isso (ou mesmo coisa alguma, afinal, é melhor não marcar presença numa festa do que ir lá e pagar mico, porque a galera não sabe bem como tratar vc);

6. Pra não dizer que só falei de espinhos… A ação do filme é uma das melhores no cinema-spandex, seja na luta final (com minhas enormes ressalvas AINDA pelo “uso” vergonhoso de Diana), sejam nos embates que surgiam no meio da jornada. Há muito que Snyder provou ser um grande diretor de ação – vide 300 – e aqui ele parece ter encontrado seu baldinho de Lego. A fotografia do filme parece ter saído de uma boa fase do Frank Miller com respiros de Mazuchelli gibizeiro-spandex e isso faz do filme um deleite para quem gosta de cinema de supers vindos de gibis.

Meu veredito final, sendo ele relevante ou não, é ver BvS como um filme que se embriagou num tonel de super-gibis 1990’tistas, e isso não é um elogio, infelizmente. Por trás de toda a fotografia bacana e cenas de ação eletrizantes, há uma história com motivos e objetivos confusos e um desfile de boas ideias subaproveitadas ou personagens que falham na simples missão de serem eles mesmos, além de intermináveis linhas de diálogo que parecem ter sido copiados de um episódio ruim de Malhação. Mas o problema real disso tudo é que as questões de fazem de BvS um filme ruim nunca serão corrigidas, mas empurradas pra debaixo do tapete… com a Liga da Justiça como vassoura.

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