Luzes Amarelas

Em destaque, foto de Josh Byers.

“As lembranças se embaralham na minha cabeça como palitos de um pega-varetas, os quais, após espalhados, vou tirando com cuidado para não perder a vez, mas que se desfazem a cada sopro de minha aproximação. A única coisa de que lembro com certeza é de que eu era criança demais para estar ali, pois todos eram grandes demais e voltavam pra mim olhares de reprovação, pena ou espanto. De resto, minhas memórias são tão mundanas ou desimportantes quanto varetas de cores repetidas, fazendo com que eu as confunda com irreais cenas de filmes tristes ou poéticos trechos de novelas literárias de bancas.

“Lembro que o policial atrás da mesa expressava uma vaga pena de mim ou raiva pela situação que o fez me pagear por duas horas. Quando conto a história para outros, coloco-o penalizado, pois pensar dessa forma me deixa mais seguro sobre o enorme homem que me olhava sem piscar, tal qual uma daquelas feiosas e assustadoras estátuas de praça. A sala onde eu estava era um baralho de cartas velhas, com paredes valetes e reis manchadas e sumidas, tendo seus buracos ocupados por fotos de outros senhores mais velhos, mas não tão diferentes dos ocupantes daquele prédio naquele momento. De alguma forma, tudo parecia inconcluso: um estojo sem canetas sobre a mesa, uma bandeira pequenina enfiada em uma borracha improvisada, um telefone com números faltando… é como se o lugar inteiro tivesse sido arrumado somente em parte, dando indicações que como terminá-lo, mas nunca realmente sendo feito. Ou assim retalha minha memória.

“Eu balançava as pernas pra frente e para trás como sinal de impaciência, parecendo muito mais menino e sozinho. Quando meu pai apareceu, ainda bêbado e sustentado por dois policiais, eu sorri tão frio quanto aquela noite azul-acinzentada, apressado em sair dali enquanto ele me parecia ainda vivo. Ele me sorriu de volta com uma alegria estúpida, medonha como o rosnado de um gato, abobalhada como o resfolegar de um cachorro – meu coração aliviou-se pesado, como uma pedra caindo devagar num rio.

– Você não pode assinar a soltura dele. – falou em voz de pedra o policial-estátua.

– E quem pode? – indaguei confuso em saber que tinham coisas para assinar. Anos depois eu aprenderia meu nome só para situações assim.

– Alguém mais velho – respondeu o policial – alguém que cuide de você.

– Ele cuida de mim – respondi resoluto, apontando para qualquer direção com o dedo, mas mirando um olhar óbvio para meu pai, que acenava com a cabeça numa indiferença alcoólica.

“O policial se levantou com um ódio seco como areia na tempestade. Ele puxou meu pai pelo braço, acenou com os olhos para os dois policiais ficarem de olho em mim e voltou para o corredor de onde eles tinham acabado de sair. Tentei pedir pra ele não fazer nada, temeroso que meu velho levasse uma surra que o incapacitasse, mas meu medo foi tão grande que tudo o que consegui foi balbuciar um choro que parecia cantiga de rádio quebrado. Quando meu pai voltou sem hematomas e com uma expressão ridícula de álcool evaporado, tremi o lábio inferior num choro de segurança.

“O policial-estátua me levou até a porta com uma expressão de fadiga e raiva que nunca entendi bem – suas mãos grandes me davam medo pela simples razão de que eu não poderia fazer nada caso ele resolvesse usá-las contra mim ou contra meu pai. Até hoje a força bruta sempre me deu mais medo que qualquer arma branca ou de fogo. Há uma passionalidade primal na violência corporal que me faz voltar a ser o menino daquele dia.

“O policial falou algo que não entendi, mas respondi positivamente e sorri infantil. Saí sozinho da delegacia segurando a mão de meu pai e rezando para que ele não caísse antes de virarmos a esquina, procurando enganar os policiais de que ele era capaz de seguir até em casa com as próprias pernas. Não lembro em que ponto o plano falhou, na minhas lembranças ele nunca deu certo e eu o guiei com dificuldade até em casa, em vários momentos realmente o carregando, feliz por ele não conseguir falar.

“Quando chegamos em casa, minha exaustão era tamanha que o deixei cair no chão da sala. Inesperado, acabei por acompanhá-lo em sua queda com a mesma impossibilidade de me salvar como alguém em uma rede cujo punho se parte. Uma vez no assoalho frio, virei seu corpo fedorento para o lado, na pretensão de me livrar daquilo, mas em seus sonhos bêbados eu era um urso de pelúcia preso em seu abraço sofrido e ele uma criança solitária, chorando um pesadelo de abandono.

“Ao perceber o peso do sono de seu braço sobre mim, desisti de pedir pra ele acordar. Aceitei que estava preso por aquela noite e tentei dormir – pois se ele conseguia, eu também poderia – mas a falta de teor alcoólico em meu sangue me impedia de ir muito além do abrir e fechar de olhos, e meu choro havia se misturado à nuvem de suor que evaporava de meu pai.

“As luzes amareladas do poste da rua entravam pela janela de vidros foscos e sujos, caindo sobre nossos corpos como a oração divina de uma santa nefasta. Em meus olhos fechados, um vermelho amarelado reforçava a insônia e eu acabava por ter cochilos cheios de demônios sem pelos, num inferno de parque de diversões igual a um desenho animado.

“Foi a primeira que percebi o quanto a cor amarela era triste.”

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